Credo do Contador de Histórias

"Creio que a imaginação pode
mais que o conhecimento.
Que o mito pode mais que a história.
Que os sonhos podem mais
que os fatos.
Que a esperança sempre
vence a experiência.
Que só o riso cura a tristeza.
E creio que o amor pode mais
que a morte."

(Robert Fulghum em Tudo o que eu devia saber na vida aprendi no jardim de infância, Editora Best Seller)


"Nunca mais uma história
será contada como se fosse
a única história..."
(John Berger)

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::: Segunda-feira, Maio 03, 2004 :::

Nas tardes de domingo, tediosas e insuportáveis, a moça sai para perambular por estradas. Gosta de ver a noite chegando, invadindo o crepúsculo vermelho, manto que cobre o tempo revelando a magia.
Ela se perde na dimensão do nada que se divide.
Às vezes, pára à beira da natureza que se divisa entre o progresso e a preservação. Árdua disputa...
Uma ocasião, sentou-se à margem de um rio. A corrente descia selvagem arrastando os cascalhos e esses sons acalentavam sua agitação interior: ansiedades inexplicáveis, saudades de coisas desconhecidas, incompreensões de si mesma.
Encostou-se na pedra a fim de absorver o momento. Calma e angústia travavam uma batalha muda...
As águas transformaram-se... Viu uma mulher no deserto que vestia roupas de couro surradas. Tinha os cabelos claros compridos presos com uma corda curtida. Montava um cavalo negro. O corpo empoeirado, a pele queimada de sol, os olhos brilhantes. Uma meia lua oscilava no peito suspensa por um cordão de prata. Seguia à frente de uma tropa de homens, guiando-os.
Ao longe, enxergava-se no meio das areias ardentes, entre cavernas de pedras atrás da cortina de pó, muitas outras mulheres. Alertas, defensivas, em posição de ataque.
A guerreira sobre o cavalo acenou um lenço branco com a mão esquerda. Na outra mão, segurava um chicote.
Pareciam perto, mas quanto mais se aproximavam mais distantes se mostravam: essa é a imensidão que não tem limites. Nem tudo o que a visão consegue tocar é verdadeiro. Abstração e ilusão são termos reais: o Universo se perde do alcance. As miragens espreitam-se às sombras, enganando, envolvendo, saboreando a imaginação dos desavisados. Os desertos ensinam a lição e riem dos que pensam tudo saber.
A guerreira era bonita, soberana, indomada, senhora do lugar.
Uma força estranha brincava em seu olhar: poder perceptível e assustador, embora suave, sensível, puro de maneira desconfiada e silenciosa, vagamente traiçoeira.
Quem seria ela? A moça não compreendia o que aquela mulher fazia invadindo um cenário que nada se relacionava com a paisagem à volta.
Viu uma criança sendo trazida. A menina - inerte e alheia -, coisa alguma percebia, parecia nada ver, sequer se movia. Mas seus olhos azuis revelavam um mistério: o mesmo brilho que iluminava a guerreira. Cúmplices, gêmeas, unidas por um invisível sombrio separado pelo tempo numa extensão intocável. Olhavam-se.
Uma voz gritava que a Morte caminhava sorrateira, vagarosa, próxima, e um misto de inquietação e surpresa elevava o interior às sensações que beiram o desespero. Palavras desconexas, confusas, envolvidas pelo medo.
A menina e a guerreira, imóveis, movimentavam-se além da percepção. Estavam imersas em mundos à parte, encontrando-se além dos horizontes da vida, perdendo-se na alegria dos que crêem em paraísos perdidos.
A guerreira ajoelhou-se na areia clara e a criança estendeu-lhe a mão. Tocaram-se...
Lágrimas quentes molharam as faces da moça quando seu corpo suado atravessou de volta o portal da realidade.
Os sonhos são oceanos de pó, abismos de águas que passeiam na memória esquecida das almas mergulhadas em profundidades celestiais...

::: Quinta-feira, Fevereiro 26, 2004 :::

Criança que se diverte em ser adulta e continua a ser criança: disputa inocência com o filho plantando cumplicidade.
Os olhos brilham marotos, investigativos, sondando todo o tempo.
Alto astral e leveza espiritual. Falava pouco de suas crenças, menos ainda de suas certezas. Desistiu de compreender algumas coisas embora muito delas entenda.
Gosta da vida, do mar, sol e praia. É amante da lua. Gosta de música, cinema. Gosta de livros... Não gosta de tomar decisões...
Alimenta pássaros que pousam em sua janela. Alimenta sonhos que se ocultam ao seu redor. Alimenta-se das pequenas surpresas do dia-a-dia...
Tem insônias, tristezas sem qualquer razão, ansiedades inexplicáveis, saudades de algo que não sabe definir. Mas ri e sorri com facilidade, esquece-se das urgências, deixa-se levar pela direção que outros apontam. Entretanto, não é tão maleável quanto tenta convencer.
Não tem muitos amigos e evita - a qualquer custo - expor-se desnecessariamente. Quando o faz, deixa uma estranha interrogação no rastro do ar: sempre fica a dúvida do que realmente é sério e do que se esconde por trás da brincadeira.
Sua voz é calma e confunde: quem a ouve pode ficar com a impressão de que a alma caminha por vales tranqüilos, despreocupada. Ledo engano: há um vulcão envolto em cinzas camuflado pelo ritmo manso das palavras doces.
O mistério do silêncio o intriga, mas vinha aprendendo a desvendar. Pouca coisa consegue aborrecer seu humor - na teoria. Na prática, sua emoção experimenta sensações que nem lhe são destinadas: é capaz de captar amarguras e dores que não lhe pertencem, e de sentir-se responsável pelo que não é.
Escreve e se descreve dentro de cenários e situações que viveu, que não viveu, que talvez venha a viver, que talvez nunca viva. É um emaranhado de contradições.
Fez a moça pensar por um momento que o conhecia tanto quanto conhecia a si mesma, para fazê-la admitir no segundo seguinte que não fazia a menor idéia de quem ele era.
Tudo tão simples e tão complexo que a cativou... Descobriu alguém que cruzou seu caminho por descuido e delicadamente foi se aconchegando em qualquer espaço vazio que ela guardava em si.
Permaneceu por um tempo: ganhou um coração devagar, cavando seu lugar numa história que parecia quase completa.
E o tempo ditou as regras. Partiu sem deixar marcas: foi pertencer a outros destinos...

::: Sexta-feira, Fevereiro 20, 2004 :::

A brisa soprava saudade ao seu encontro... Sentou-se no chão da varanda para olhar a noite.
Na contradição da emoção, o sorriso e a lágrima se misturaram... No tempo perdido de sua memória, dez anos desapareceram e um filme que sempre se repete iluminou a escuridão de chuva fina e tranqüila.
Dez anos atrás uma noite clara descobria-se de seu manto e tirava o véu daquela que caminhava em busca de alguém que ela amara.
O rosto desfigurado de pele morena, os cabelos lisos inertes, os dentes, antes tão perfeitos, desalinhados pelo impacto. A camisa branca vazia e nada mais. Uma caixa de madeira lacrada. A última vez...
Ela se lembrou de estar sozinha no jardim à espera do momento final, quando desceram a lápide fria sobre suas esperanças. Ela havia permanecido ali por muito tempo depois que todos se foram. Ficou escutando o som do silêncio, tentando ouvir a voz que lhe contaria que era tudo mentira, uma brincadeira tola do destino confuso, um engano.
Nada ouviu... A tarde caía mansamente, o vento era calmo e o sol, vermelho no horizonte, recolhia-se vagarosamente. Ela não chorou...
Desde então, estava por sua conta e risco.
Tremeu ao pensar no quanto era insuportável continuar a viver...
Agora já se iam dez longos anos e a sensação solitária da reprise interminável de um dia sem fim - que jamais começou nem nunca mais terminou -, ainda não a abandonara.
Nada mudara desde então. Ela se perdeu em inúmeras tentativas infundadas de salvar a si mesma e o que restara de sua alma, enquanto uma indiferente tempestade de neve enterrava suas intenções e uma constante avalanche descendo da encosta de seu íntimo amarrotado pela dor insistia em lhe tolher os caminhos, fechar os rumos num rastro sombrio, apagar todas as luzes a cada amanhecer...
Não se acostumara com aquela ausência. Todos os dias, tomada por um devaneio louco, pegava-se questionando o universo a respeito de algo tão sem sentido. Não era capaz de compreender...
E agora, a constatação de mais um ano em que continuava largada num mundo sem fronteiras, desconhecendo o curso de sua estrada, pisando em falsos atalhos, dirigindo-se para algum lugar que começava a desconfiar não existir.
Sente-se como alguém que escolheu entrar num túnel sem saída, voltou-se para a entrada e descobriu que também a porta havia sido fechada.
Tem a impressão de que labirintos se erguem a todo instante: brumas intocáveis às suas mãos... Um mistério parece guiá-la para armadilhas...
Pouca coisa realmente importa. A lembrança suave e pálida de olhos negros que se desvanecem quando sua percepção se torna momentaneamente atenta, cravou sua marca, escrevendo com símbolos embaralhados em seu pensamento, uma história regada a fantasia, lenda criada por sua mente aguçada, um sonho...
A chuva insistia, lenta... Outono... O reflexo da tristeza escondida nos cantos, derrubando folhas, coreografando nuvens, desenhando no infinito um desalento que todos pressentem sem saber ao certo de onde vem...
Ela se levantou e entrou na casa tentando deixar lá fora a sombra que a acompanhava... Essa era uma hipótese inventada, jamais possível...
No espelho da sala olhou-se: ele lhe devolveu um sorriso...
O sussurro da brisa gelada que transpassou a janela às suas costas, avisou-a de que a longa viagem de contar o tempo, ainda guardava muitos anos à sua espera...

::: Domingo, Janeiro 11, 2004 :::

O céu se vestiu de sal e o mar cobriu-se com o crepúsculo da tarde em plena manhã. Cinza... As nuvens brincavam com a brisa fresca e no horizonte uma faixa celeste confundia: ao longe, era quase impossível sabê-la céu ou mar...
Não fazia frio, contudo. Era bom estar na praia sem o sol a pino. Amenidades. Fazia bem a tranqüilidade de simplesmente contemplar as horas...
Quis desenhar nas areias desejando que as águas não apagassem jamais os traços de suas letras sem peso. A leveza das coisas simples morava com ela. Quis marcar o espaço com suas pegadas num dia que amanhecia trazendo qualquer alegria. Sem motivo aparente...
Registrar nas páginas brancas do destino sua trajetória oscilante de dor e mágoa que agora estava sendo banhada por uma paz que ela desconhecia. Era tempo de gritar aos cantos obscuros do mundo sua força, sua imensa capacidade de suportar as coisas ruins e recuperar-se na brevidade de um segundo, curando as cicatrizes com sua própria saliva.
Fascinava-se naquele momento consigo mesma. Fazia um balanço de seu tempo naquele lugar e constatava que havia progredido: estava a caminho de encontrar o eixo e centrar-se novamente... Sozinha... O vislumbre de suas lágrimas parecia pertencer a um outro tempo, distante, perdido na imensidão de suas muitas vidas. Seus soluços abafados, sua esperança inerte sobre o tapete: nada disso mais lhe pertencia. Agora, a mansidão de seu interior lhe contava que andava roubando o sono de alguém que lhe roubara uma metade de si que ela já recuperara.
Essa era a maldade do seu feitiço: entregar-se, dar-se, inteira e completa, sem paixões ou ciúmes, medos ou cobranças. Mas deixar-se ir de maneira plena, calma e cativa, tomando a alma e o corpo feito Lua sorrateira na janela em noite clara. Imperceptível e soberana... Era assim que passava pelos sentimentos dos que cruzavam suas trilhas...
Que não a deixassem abandonada à mercê da mentira era a lei que seus olhos ditavam no silêncio: era-lhe impossível abrigar em seu colo novamente um corpo marcado por mãos estranhas, beijar lábios que guardavam outros desejos, deixar acolher-se num coração que, sem pensar duas vezes, quebrara a harmonia sublime do que se afinava à verdade... À sua verdade... Ela partia e não mais voltava...
Divertia-se escutando as vozes das águas... Há muito não prestava atenção aos seus sons, ao vai e vem confortante, delicadeza marota tocando seus pés...
Um livro descansava ao lado, um livro bom que lhe fora devolvido sem razão: na primeira página, lia-se a dedicatória carinhosa rabiscada numa noite em que vinho, risos e sorrisos se misturavam na inebriante carícia da brincadeira inocente de namorar. Ela o mandaria de volta depois que acabasse de lê-lo... Certamente, viera junto aos outros livros por descuido: não lhe era possível crer que aquele homem fosse capaz de se propor a criar mágoas desnecessárias propositadamente, incansável; que houvesse se enganado tanto a respeito do brilho de seus olhos...
Pensava... Pensava em muitas coisas e em nenhuma. O muito que ainda havia para resolver, decidir e buscar. Os atalhos se misturam, cruzam-se, bifurcam-se em estradas onde nada se pode enxergar além da curva. Pensava em si mesma, nas pessoas que amou, nas que ama... Pensava nos que estão distante, à sua espera... Naqueles que ela esperou e nunca voltaram... Mas não havia amargura. Pensava, porque sua mente não pára, nunca descansa.
É uma mulher comum... Monta cenários, colhe cenas, inventa. Essa é a sua arte. Na calada da noite, na pureza do dia, em qualquer lugar, os ideogramas brotam de suas raízes, saltando do abismo para a possibilidade de fundir-se com as lentes do universo...
Traça espelhos sobre si mesma, sobre o que viu, o que jamais verá, ilusões e abstrações de sua criação. Descreve-se: um sem número de mulheres que passeiam por suas entranhas, escorrem pelo seu sangue, refletem-se em seu olhar... Prismas selvagens... Mas quando relê suas próprias palavras, depara-se com um mistério insondável: cada vez mais, sabe menos quem é...

::: Domingo, Dezembro 28, 2003 :::

Aconteceu naquele dia em que ela foi buscar a filha na escola e a criança demorou-se um pouco: foi o tempo exato para uma solidão se instalar trazendo lembranças que ela lutava para esquecer.
Numa outra ocasião, aconteceu enquanto ela se perdia no trânsito vagaroso: a música distante invadiu tudo ao redor e ela se viu dançando à luz da lua, numa noite sem fim que nunca mais existiu.
Teve uma vez que ela comprou flores e as espalhou pela casa: quando seus olhos pousaram nas pétalas coloridas, um arco-íris rodeou a sala e um campo abriu-se à sua frente: trigo e girassóis, o destino deslizando no riso feliz de dois adolescentes que desenhavam o futuro pelas brechas de sonhos possíveis.
Foi quando estava no supermercado, numa tarde chuvosa, que ela sentiu de novo: a vida lhe incomodava. E lhe incomodava mais ainda saber que não havia motivos para aquela incompreensão, a angústia, um estranho vazio de dor.

::: Sexta-feira, Dezembro 26, 2003 :::

A moça descobriu, naquela tarde, que a vida muda num segundo e nem dá tempo de se preparar.
Um dia perfeito pode se transformar no maior desastre, e dor e solidão viram um palco para a frustração dançar.
A moça também descobria que ter boas intenções e fazer o melhor - segundo o próprio conceito -, nem sempre adianta - aliás, talvez não adiante nunca, ela constatava.
Há o efeito dominó: um erro desencadeia em outro e uma sucessão de enganos se instala.
Porque não se consegue pensar sempre com objetividade, nos falta praticidade e olhares menos emocionais, é a pergunta que ela se fazia.
A moça queria ser mais amada, mais querida, mais necessária. Também queria ser capaz de errar menos, mas continuar mostrando que pode se rebelar ao que não entende nem aceita, e que lhe respeitassem as decisões. Queria aprender de 'punir' as pessoas certas, ao invés de atingir quem está mais próximo e nem sempre tem culpa, porque sempre tenta se comportar de forma adequada.
A moça lembra agora de Satre: "O inferno são os outros...". Sim: esses outros que vivem ao nosso redor e dos quais não podemos nos livrar...

::: Terça-feira, Novembro 25, 2003 :::

Então ela acordou muito cedo e viu que o dia estava nublado, a brisa gelada. Ainda assim, abriu as janelas, deixou o ar entrar - e sentiu um perfume invadir os aposentos. Regou as plantas na varanda.
Foi ao supermercado, fez suas compras, sorriu para as pessoas. O sol despontou e clareou tudo. São assim os outonos: uma contradição temporal, vento e folhas, luz pelas brechas.
Preparou o almoço e os filhos chegaram para se juntar. Uma das noras trouxe flores e coloriu a casa. Havia merengue, morango e chantilly de sobremesa; café e pão de mel. Havia riso, música e muito papo.
Ela teve certeza de que era mesmo feliz. E que conseguia espalhar essa felicidade ao seu redor - entre os seus, os não seus, entre todos...